Imprensa Sindical por Val Gomes

x

Fale comigo

Preencha os campos abaixo e deixe sua mensagem

A comunicação sindical e os valores de classe

Por Esdras Gomes (com contribuição de Marina Valente)

“Quais os valores que absorvemos de nossas famílias? Quais deles da sociedade? Em tudo que fazemos e agimos deixamos uma pequena pegada formada por nosso caráter e como ele irá se relacionar no mundo. Não é à toa que a falta de alguns dos valores é sentida pela sociedade e está se convertendo em solidão, individualismo e buscas que nem sempre nos levam para agrupamentos sociais que respondem no sentido de melhora do nosso entorno social.

Marx, Lênin e Gramsci falam em suas obras que as ideias das classes sociais se incorporam na vida cotidiana através de valores e práticas sociais. No capitalismo, a burguesia impõe a competição, o “jeitinho” e o individualismo. E, dessa forma, todos acabamos afetados por esses valores. Não se trata de questionar o fim da velha “moral e bons costumes”, mas perceber que essa burguesia, detentora da direção cultural da sociedade, como diria Gramsci, impõe a competição como um valor supremo. A tal da meritocracia, alimentada até mesmo nos bancos de escolas.

A competição vai do Big Brother, passando pelo local de trabalho e atingindo até as relações familiares. Outro valor social burguês é o de tirar vantagem em tudo no eterno anseio de aumentar a margem do lucro. E não seria o “lucro” das relações o chamado “jeitinho brasileiro”? Uma sacralização de um valor burguês como sentimento nacional. E ainda temos a valorização excessiva do indivíduo. Presente na meritocracia daqueles que acreditam que “chegaram lá” ou “conquistaram” tudo sozinhos e no narcisismo torpe das redes sociais. Sinais de um tempo onde tudo é voltado para os indivíduos em detrimento da coletividade.

Os sindicalistas e os valores burgueses

Os sindicalistas não são imunes aos valores burgueses! Na verdade, nem os mortos estão imunes, ao recontar suas histórias tendemos a analisá-los nos olhares e valores atuais, todos eles contaminados por esses traços de valores burgueses. Por que não estamos imunes? Tem várias respostas possíveis. Um exemplo está no que na teoria chamamos de behaviorismo. Somos submetidos a todo instante, através dos meios de comunicação, a mensagens que por meio de repetição, geram comportamentos sociais. É o nosso “compre Batom, seu filho merece Batom” diário.

A sociedade burguesa premia os que seguem seus valores e pune quem apresenta valores diferentes. Um exemplo, é quando questionam se o sindicalista não está ganhando dinheiro para lutar, “para que você está perdendo tempo com isso? Nem ganha nada!” O fato de o sindicalista ter se levantado uma vez e ter entrado na direção do sindicato, não quer dizer que ele tenha vencido os valores burgueses.

Lênin alertava de que estes valores invadem a sociedade mesmo durante período revolucionário. Um alerta que ele trouxe em seu livro “Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo”:  “Esses pequenos produtores cercam o proletariado por todos os lados de uma atmosfera pequeno-burguesa, embebem-no nela, corrompem-no com ela, provocam constantemente no seio do proletariado recaídas de frouxidão, dispersividade e individualismo pequeno-burgueses, de oscilações entre entusiasmo e abatimento” (LÊNIN. 1989, p. 41). Segundo o revolucionário, “a força do hábito de milhões e dezenas de milhões de homens é a força mais terrível”.

E corrompidos por essa atmosfera pequeno burguesa, sindicalistas lançam mão do assédio moral, efeito colateral cruel da competição, estabelecida, inclusive entre seus pares. Quantos dirigentes não se queixam da competição e do tratamento despendido entre alguns diretores? Sem falar em opressão ainda maior, por vezes, sofridas por funcionários das entidades. Mas não devemos naturalizar. É preciso fazer como sugere Lênin: propagar os bons valores dos trabalhadores.

Marina e Esdras

Comunicação sindical como comunicação contra hegemônica

Neste sentido, a direção do sindicato consciente do seu papel de defesa dos trabalhadores deve ter a comunicação como arma estratégica. Os valores do companheirismo, honestidade, honra, humildade, solidariedade e compromisso devem ser assumidos como estratégicos e devem fazer parte da postura de todos os dirigentes. Não é fácil. Principalmente hoje em dia, onde uma crítica franca é vista como afronta. A camaradagem realmente parece estar de lado.

Lênin buscava que nas reuniões fossem feitas autocríticas (o que errei na condução do sindicato) e nas críticas (o que no coletivo falhou), como forma de melhorar o desempenho nas organizações. Isso, porém, algumas vezes, tem se transformado num eterno processo de “mea-culpa (“mea-boca”) e “fuzilamento’ dos outros. A crítica e autocrtica dependem do sentimento de camaradagem e da eliminação das vaidades.  Lembrem-se, como canta Caetano, “…é que Narciso acha feio o que não é espelho…”. A comunicação tem que ser vista de forma ampla, desde a postura física dos dirigentes (não dá para jogar papel na rua) até nos jornais, onde não dá para mentir.

Esdras Gomes e Marina Valente são jornalistas

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *