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Ary Barroso, os 18 comunistas e a “batalha do Maracanã”

Lance da partida decisiva da Copa-1950, entre Brasil e Uruguai, no Maracanã: estádio foi “prova da capacidade realizadora do brasileiro”

Campanha contra a Copa do Mundo de 2014 repetiu ladainhas que o Brasil também enfrentou – e venceu – ao sediar o Mundial-1950

Por André Cintra*

Não se falava de outra coisa. O Brasil entregaria em tempo as obras para a Copa do Mundo – a começar pelo palco da abertura do torneio? Os gastos com o Mundial se justificavam? Por que construir estádios que talvez não tivessem público no futuro? Valia a pena, enfim, sediar a famigerada competição da Fifa?

É bom não se precipitar. Por mais que esse relato tão pessimista possa lembrar as dúbias manifestações de junho de 2013 ou mesmo a reacionária campanha “Não Vai Ter Copa”, não havia nada de original nos ataques à preparação do Brasil para o maior evento do Planeta. Sob diversos aspectos, a onda contrária à Copa do Mundo de 2014 repetiu as ladainhas que o País enfrentou – e venceu – ao sediar o Mundial-1950.

Apesar de perder o título para o Uruguai, o Brasil foi bem-sucedido ao acolher o 4º Campeonato Mundial de Futebol, disputado em seis cidades-sede. As previsões catastrofistas não se confirmaram, e o francês Jules Rimet, lendário presidente da Fifa, foi o primeiro a reconhecer a “exemplar contribuição” dos brasileiros.

Existem detalhes que, embora pouco divulgados, são fundamentais para a compreensão da história. É o caso da participação decisiva do ex-presidente Getúlio Vargas, um dos “pais” do Mundial no Brasil, seja pelo incentivo à nossa candidatura junto à Fifa, seja pela proposta pioneira de erguer um estádio de padrão internacional. Da mesma maneira, houve uma imprescindível – e, no entanto, quase esquecida – intercessão do Partido Comunista do Brasil para viabilizar o Maracanã, o “maior do mundo”, celebrado como o “Gigante do Derby”.

A Era Vargas e o futebol

Foi com o Golpe de 37, marco inaugural do Estado Novo (1937-1945), que Getúlio Vargas converteu o esporte em elemento da unidade nacional. O incentivo à Educação Física nas escolas virou uma das vitrines da propaganda oficial, e os eventos cívicos eram entremeados com partidas de futebol entre operários, sindicalistas e militares de baixa patente.

Outra vertente desse processo era a apropriação de estádios para a celebração do Dia do Trabalhador. Sob os auspícios do poderoso Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), os comícios oficiais de 1º de Maio mobilizavam dezenas de milhares de “trabalhadores do Brasil” a São Januário, no Rio. Diante da multidão, Vargas anunciava conquistas como o salário mínimo e a Justiça do Trabalho.

O Pacaembu, aberto em 1940, agregou mais um palco de exaltação ao Estado Novo. Vargas, o “chefe da Nação”, foi a São Paulo para inaugurar o Estádio Municipal, a “maior e mais moderna praça de esportes da América do Sul” à época, com capacidade para 70 mil espectadores. “Nunca houve uma festa esportiva que tivesse tido um cunho oficial de tamanha projeção”, saudou a Folha da Manhã.

A “festa” no Pacaembu deixava claro que era possível promover o Brasil para além das fronteiras nacionais. Ainda que o estádio não fosse federal, a presença de delegações de Argentina, Uruguai e Peru comprovava a maior influência brasileira no continente. Numa área nobre do estádio, os gestores acenderam a “Chama Olímpica” e hastearam bandeiras de todas as nações com que o Brasil mantinha relações diplomáticas.

Simpático aos regimes nazifascistas, Vargas vislumbrava um feito mais extraordinário. Se Benito Mussolini realizou com êxito a 2ª Campeonato Mundial de Futebol (1934) e Adolf Hitler capitalizou os Jogos Olímpicos de Berlim (1936), por que o líder do Estado Novo não podia cobiçar uma grande competição dessas no Brasil?

De olho na crescente popularização do futebol e na visibilidade dos eventos esportivos internacionais, Vargas autorizou a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) a lançar a candidatura do País a sede da Copa do Mundo de 1942. A missão foi entregue ao presidente da Comissão de Assuntos Internacionais da CBD, Célio de Barros, que se dirigiu à França, em junho de 1938, para representar o Brasil no Congresso da Fifa. O encontro ocorreu na sede do Automóvel Clube de Paris, a poucas horas da abertura do Mundial daquele ano.

Na volta ao Rio, Célio portava notícias nada otimistas. Alemanha e Argentina – que já haviam concorrido ao direito de realizar o Mundial-1938 – eram agora favoritas a abrigar a Copa-1942. E mais: Jules Rimet, presidente da Fifa desde 1921, não escondia seu deslumbramento com a ótima organização da Olimpíada de 1936 – um trunfo dos alemães. Em contrapartida, os delegados do Congresso em Paris propunham levar a Copa para a América do Sul em 1946.

Da Guerra à Copa

Se quisesse ingressar no mapa-múndi dos grandes eventos, o Brasil teria, no mínimo, de apresentar um estádio à altura. Local para erguê-lo existia: a área abandonada do antigo Derby Club, no Maracanã, zona norte do Rio. Vargas idealizava a construção de um estádio superior a São Januário e ao Pacaembu – talvez o “maior do mundo”. Voltado ao esporte, o empreendimento poderia reunir também mais participantes – e em condições apropriadas – nos comícios do Estado Novo.

“As primeiras discussões oficiais acerca da construção de um grande estádio ‘nacional’ de padrões olímpicos no Rio de Janeiro aparecem em 1939, envolvendo setores tanto da administração do Distrito Federal quanto do Ministério da Educação e Saúde, entre eles o próprio ministro Gustavo Capanema. Em 1941, o Ministério chegou a promover um concurso para escolher o melhor projeto arquitetônico para sua construção”, detalha o pesquisador Fábio Franzini, em artigo para a Revista de História.

Os vencedores do concurso foram os arquitetos Pedro Paulo Bastos e Antonio Dias Carneiro, que apresentaram uma ousada planta em falsa elipse para o novo estádio. Mesmo com o aval de Vargas, porém, o projeto esbarrou em duas pendências: os impasses burocráticos para a compra do terreno do Derby pelo Ministério e as denúncias de falta de lisura no concurso.

O advento da 2ª Guerra Mundial (1939-1945) forçou o adiamento dos planos do governo. O conflito devastou a Europa e impossibilitou a realização de grandes eventos esportivos. A exemplo do COI (Comitê Olímpico Internacional) – que cancelou as Olimpíadas de 1940 e 1944 –, a Fifa não promoveu a Copa nos anos de 1942 e 1946.

Com o fim da Grande Guerra, o Campeonato Mundial de Futebol voltou a ser articulado, ao mesmo tempo em que o Brasil retomou o ciclo democrático. Depois de 15 anos no poder, Vargas foi deposto em 1945. A ruptura não afetou os planos de trazer uma Copa para o País – até porque, em 2 de dezembro daquele ano, um ex-ministro varguista, o general Eurico Gaspar Dutra, venceu as eleições presidenciais e manteve a proposta de pé.

A decisão de Dutra aliviou a Fifa, que, a rigor, não tinha alternativas. O 25º Congresso da entidade, em julho de 1946, em Luxemburgo, deliberou pela expulsão da federação alemã. A Associação de Futebol Argentino, em crescente rivalidade com a CBD, desistiu de promover a Copa seguinte. A Europa inteira, ainda sob os destroços da 2ª Guerra Mundial, estava fora de cogitação. Sem concorrência, os delegados da Fifa indicaram o Brasil, por unanimidade (34 votos a zero), como palco da primeira Copa do Pós-Guerra.

Luiz Aranha, ex-presidente da CBD e chefe da delegação brasileira em Luxemburgo, esbanjou confiança: “Será o mais belo e o mais brilhante Campeonato Mundial de Futebol que se realizará”. Previsto para 1949 e em apenas duas sedes (Rio de Janeiro e São Paulo), o torneio foi posteriormente remarcado para 1950 e incorporou mais quatro capitais brasileiras – Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Recife.

A “batalha do Maracanã”

Parte da grande imprensa investiu no pessimismo. Denunciou-se, antes de tudo, a modesta tradição do País em torneios internacionais, resumida a eventos como o Campeonato Sul-Americano de Futebol (1919, 1922 e 1949), os Jogos Olímpicos Latino-Americanos (1922) e a Corrida de São Silvestre (criada em 1925, mas internacionalizada apenas 20 anos depois).

O coro dos conservadores teve eco, e o País foi muito cobrado ao se preparar para o Mundial. O comitê organizador contava com apenas um brasileiro, Sotero Cosme, e quatro europeus. “Se no papel tudo estava ajustado, restou ao Brasil o cumprimento das mínimas exigências”, conta o jornalista Teixeira Heizer no livro O Jogo Bruto das Copas do Mundo. “Transportes, hotéis, condições sanitárias e, sobretudo, estádios eram alguns dos pontos delicados no quadro de quesitos para quem se candidatava ao patrocínio de evento tão importante.”

O apelo era grande: além do Brasil, 12 países estavam confirmados para a Copa e embarcariam com suas delegações. De todo modo, o que preocupava mais a Fifa era a questão dos estádios. Campo de futebol algum correspondia às expectativas da entidade. De cada cidade-sede, a Fifa cobrava um estádio seguro (com alambrados reforçados), de médio porte (para ao menos 20 mil espectadores), com tribunas para a imprensa e para as autoridades. O entorno precisava estar em ordem.

Pode parecer pouco, ainda mais em comparação com o “padrão Fifa” atual. Mas, das seis sedes do Mundial-1950, cinco correram contra o relógio para adequar seus estádios. O Eucaliptos (RS), o Durival de Brito (PR), a Ilha do Retiro (PE) e o Independência (MG) tiveram de ser ampliados. Mesmo o novíssimo Pacaembu passou por uma razoável reforma para a Copa.

O ponto mais fora da curva era a capital federal. Segundo Teixeira Heizer, a Fifa não via nenhum estádio carioca com simpatia: “A sede principal era o Rio de Janeiro, mas São Januário (40 mil espectadores), Laranjeiras, Gávea, General Severiano, Campos Sales e outros foram considerados muito acanhados para abrigar jogos de significação internacional”.

Jules Rimet temia que o Brasil repetisse os problemas enfrentados no 1º Campeonato Mundial, no Uruguai, em 1930. Apto a acolher até 100 mil espectadores e indicado como único palco do torneio, o Estádio Centenário teve as obras atrasadas devido às chuvas de outono que tomaram Montevidéu. De última hora, a Fifa foi obrigada a transferir alguns jogos para outros estádios.

Para o Brasil não correr riscos, João Lyra Filho, presidente do Conselho Nacional de Desportos (CND), reivindicou mais apoio oficial. Exagerado, o dirigente insinuava que o País poderia passar pela “humilhação” de submeter-se à Argentina, “rogando” o empréstimo de “algumas de suas praças” esportivas.

Foi nesse momento acalorado, em pleno ano de 1947, que emergiu a “batalha do Maracanã” – um caso exemplar do confronto entre as ideias progressistas e o pensamento conservador. Com base na aspiração do Estado Novo, a ideia de erguer o maior estádio do mundo no Rio de Janeiro voltou à tona. Os pessimistas estrilaram. Só que o embate não foi nada fácil.

Duelos na tribuna

A primeira personalidade a aproveitar o pretexto da Copa para lançar uma campanha pró-Maracanã foi Mário Filho, decano da crônica esportiva e dono do Jornal dos Sports. Conhecido como “o criador das multidões”, Mário saiu em defesa da iniciativa de construir o “maior do mundo” no terreno ocioso do Derby, “o centro geométrico da cidade”. Àquela altura, o Jockey Club, proprietário do local, já o havia cedido à Prefeitura.

Havia uma relevante alteração no projeto: idealizado como “estádio nacional”, o Maracanã, sem Vargas, só seria executado se a iniciativa partisse da Prefeitura do Rio – o que dependia do apoio dos vereadores cariocas. Não demorou para a polêmica chegar à Câmara do Distrito Federal. Em junho de 1947, o general Ângelo Mendes de Moraes, indicado por Dutra para prefeito do Rio, encaminhou uma “Mensagem do Executivo” à Câmara dos Vereadores, que vivia sua 1ª Legislatura depois do Estado Novo.

E que legislatura! Nas eleições de 1947 para vereador no Rio, o campeão das urnas foi ninguém menos que o jovem jornalista Carlos Lacerda, da conservadora UDN (União Democrática Nacional). A segunda maior votação coube a outro célebre udenista – o cantor e compositor Ary Barroso. Mas a legenda que saiu do pleito com a maior bancada foi o Partido Comunista. Dos 50 vereadores eleitos, 18 eram “vermelhos”, como o jornalista e humorista Aparício Torelly, o “Barão de Itararé”; o ex-tenente Agildo Barata, líder do levante comunista de 1935; e o intelectual marxista Octávio Brandão, autor do clássico Agrarismo e Industrialismo.

Embora pertencessem à mesma sigla, Carlos Lacerda e Ary Barroso protagonizaram a polêmica em polos opostos. Ary – que também atuava como narrador esportivo – defendia um campo para 150 mil espectadores no bairro do Maracanã. Já Lacerda, de início contrário à própria construção de um estádio – porque havia São Januário –, passou a criticar o custo e o local propostos, propondo um complexo esportivo com 60 mil lugares, em Jacarepaguá, na zona oeste. Sem acordo, os dois vereadores travaram verdadeiros duelos verbais.

Ary dizia representar “os mais genuínos” interesses do povo, que, segundo ele, amava o futebol e preferia frequentar “uma nova praça desportiva a mais leitos de hospitais”. Lacerda afirmava que um estádio monumental, “nos moldes da Itália de Mussolini e da Alemanha de Hitler”, era incompatível para uma cidade “comprometida financeiramente” e tão “carente de hospitais” como o Rio. Além de convocar o secretário municipal de Finanças para “provar os limites” da Administração Municipal, o parlamentar espinafrava Mendes de Moraes: “Eu represento a vontade de 37 mil eleitores. O prefeito, apenas a copa e a cozinha do executivo federal”.

Até que Ary Barroso recorreu ao povo. Num lance de audácia, o compositor-vereador encomendou, por sua conta, uma pesquisa de opinião pública junto ao Ibope. Feito no fim de semana de 15, 16 e 17 de agosto de 1947, o levantamento contou com uma expressiva amostragem: 500 aficionados por futebol, entrevistados à saída de três partidas da rodada (Botafogo x Olaria, Vasco x Bonsucesso e América x Madureira), além de 580 moradores do Rio em geral.

Vitória popular

Os resultados não davam margem à dúvida. Ao eleger sua diversão preferida, os cariocas já se dividiam entre o cinema (30,5%) e o futebol (29,2%). Sobre a construção de um estádio municipal, 79,2% do público geral queriam ver a iniciativa no terreno do Derby Club, no Maracanã – somente 6,9% preferiam Jacarepaguá. E o mais impressionante: 53,6% aceitavam “cooperar na medida de seus recursos” para financiar o empreendimento. Entre os aficionados por futebol, 95% eram favoráveis a mais um estádio e 85,3% apoiavam a construção do “maior do mundo”.

Com a pesquisa em mãos, Ary Barroso foi pedir o apoio da bancada comunista na Câmara. De acordo com o compositor, o que estava em pauta era um tema de interesse nacional, acima das divergências político-ideológicas. As afinidades prevaleceram, e os comunistas aderiram à propositura. Em troca do apoio de seus 18 vereadores, a bancada apresentou uma emenda pela construção de cinco campos de futebol no subúrbio do Rio – o próprio Ary negociou pessoalmente a efetivação da emenda com o prefeito.

Com 29 votos a favor, dois contra e 19 abstenções, a “batalha do Maracanã” terminou em êxito: o Estádio Municipal podia sair do papel. A “lei do Maracanã” foi promulgada por Mendes de Moraes em 14 de novembro de 1947.

Poucas semanas depois, com a cassação do Partido Comunista, os 18 vereadores corresponsáveis pela construção do “maior do mundo” perderam o mandato. A construção propriamente dita do estádio foi outra batalha, igualmente épica, que durou 22 meses e merece um artigo à parte. Mas, sim, houve Copa do Mundo em 1950, e sete das 23 partidas foram disputadas no Maracanã.

Os conservadores ficaram para trás. Nas páginas da Gazeta Esportiva, o regozijo era total: “Senhores, está aí o Campeonato Mundial de Futebol. Em nossa casa. Em nossos campos. Em gramados verdinhos da nação brasileira. Mas, principalmente, em nosso orgulho de organizadores”. Segundo o Jornal dos Sports, o País podia exibir, com o Maracanã, “uma prova da capacidade realizadora do brasileiro”, “um cartão de visita do Rio de Janeiro” e, ainda, o estádio onde “haveremos de ser campeões do mundo!”.

Faltou o título, assim como os cinco campos prometidos aos comunistas não saíram do papel. Mas, fora das quatro linhas, a Copa do Mundo de 1950 assinalou uma contundente vitória dos brasileiros – contra sua própria e histórica insegurança, mas, sobretudo, contra os conservadores. A construção de um estádio do porte do Maracanã não apenas orgulhou os brasileiros – mas também elevou o status do País nos meios esportivos, antes mesmo de a Seleção Brasileira sagrar-se campeã mundial.

“O que é passado é prólogo”, ensinava o dramaturgo William Shakespeare. Vivemos semelhante histeria conservadora em 2014, outro ano de Copa no Brasil e eleição à Presidência. Os comunistas voltaram a ter papel-chave – agora à frente do Ministério do Esporte –, e os “discípulos de Carlos Lacerda”, com seu alarido anti-Copa, novamente sucumbiram.

O capítulo melancólico, tanto em 1950 quanto em 2014, ficou por conta da Seleção Brasileira. Nada que, desta vez, um hexacampeonato no Mundial-2018, na Rússia, não nos ajude a esquecer do 7 a 1.

* André Cintra, jornalista, é secretário de Comunicação do PCdoB São Paulo. Foi assessor da SPCOPA (Comitê Especial para a Copa do Mundo de 2014, ligado à Prefeitura de São Paulo)

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