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O futebol e o Brasil de Lima Barreto

O futebol como arte popular é um conceito quase unânime no Brasil. Mas a realização da Copa do Mundo de 2014 no país suscitou polêmicas que vão além do esporte. Entraram pelo mundo da manipulação política e da tentativa de afastar o povo das arenas esportivas.

Por Osvaldo Bertolino

Trajadas de preto da cabeça aos pés, e parecendo saídas das peças do imortal Federico Garcia Lorca, velhinhas espanholas costumam murmurar um conhecido adágio: “Yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay.” O sussurro fatalista significa que elas renegam a existência de feiticeiras — não se espantariam, porém, diante de silhuetas de mulheres cavalgando vassouras, recortadas contra a luz da lua cheia.

Esse ditado pode ser transposto para ambientes mais coloridos: a confraria dos manifestantes do golpismo que reivindicaram uma ampla pauta, percorrendo as ruas do país e gritando que sentiam orgulho de serem brasileiros. No meio deles havia os que atiraram palavras de ordem contra o governo, os “políticos”, os partidos e mais uma variada gama de assuntos, entre os quais os estádios e a Copa do Mundo de 2014.

Seria natural ser contra a Copa (e eventualmente manifestar esse descontentamento nas ruas e nas urnas). O inaceitável era o papel de ingênuo a ponto de acreditar nas graves questões de “princípios” erguidas pela grita criminosamente colhida e depois habilmente manipulada pela mídia. Anjos de candura, os prelados daquela armação alegaram passar longe de tamanha vilania. Suas práticas, mais antigas do que andar para frente, contudo, mostraram exatamente o contrário, como se viu com o resultado do golpe — o impeachment fraudulento da presidenta Dilma Rousseff.

Apresentaram números saídos sabe Deus de onde, divulgados a torto e a direito por jornais, revistas, portais, rádios e televisões da mídia, cabalmente desmentidos pela realidade e por uma nota sucinta e precisa do Ministério do Esporte, à época ocupado por Aldo Rebelo.

A nota esclareceu que havia uma linha de empréstimos, via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com juros e exigência de todas as garantias bancárias, como qualquer outra modalidade de crédito do banco. O teto do valor do empréstimo, para cada arena, era de R$ 400 milhões, estabelecido em 2009, valor que permaneceu o mesmo.

O BNDES tinha taxas de juros específicas para diversas modalidades de obras e projetos. O financiamento das arenas fez parte de uma dessas modalidades. “Estão fazendo um paralelo entre os recursos para a Copa e em saúde e educação. É bom destacar que, somente este ano, o orçamento das duas áreas é de R$ 177 bilhões. O orçamento do Ministério do Esporte é aproximadamente 1% desse total. Portanto, não há desvio de recursos de outras áreas para a construção de estádios”, explicou Aldo Rebelo.

O ministro disse também que melhorias no transporte de pessoas seria o maior destino dos investimentos feitos para a competição. Segundo ele, os recursos, em sua quase totalidade, estavam previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). “É um legado importante que seria construído nas cidades, independentemente de ter Copa do Mundo ou não”, reforçou. Além do mais, os que pregaram pela cartilha da mídia desconsideraram os números do estudo “Brasil Sustentável — impactos sócio-econômicos da Copa do Mundo de 2014”, realizado pela consultoria Ernst & Young em parceria com a Fundação Getúlio Vargas.

Mais do que um campeonato internacional, a Copa mudou a cara do Brasil, segundo o estudo. E não apenas nas 12 cidades-sede. O mundial injetou R$ 142 bilhões na economia brasileira de 2010 a 2014. A avalanche de recursos criou 3,63 milhões de empregos, além de adicionar R$ 63,48 bilhões à renda da população. Diz o estudo que a Copa 2014 trouxe R$ 142 bilhões ao Brasil. Além dos investimentos diretos na Copa, outros R$ 112,8 bilhões foram injetados na economia com o crescimento de setores como construção civil, turismo e comércio.

No período 2010-2014, o número de turistas internacionais deve cresceu em 2,98 milhões, alcançando 7,4 milhões no ano da Copa. Nos quatro anos, foram ser geradas receitas adicionais de R$ 5,94 bilhões. Para o ano do campeonato, foram nada menos do que US$ 8,73 bilhões trazidos ao país com gastos de turistas. As cidades-sede — Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo — receberam cerca de R$ 14,54 bilhões de investimento em infraestrutura. O montante investido adicionou às receitas municipais R$ 7,18 bilhões.

A outra face dessa moeda brasileira é a valorização da importância do futebol para o povo. A habilidade dos jogadores negros e mestiços se impôs contra o preconceito que havia nos clubes. Com a Revolução de 1930, que abriu as portas para “os de baixo” e representou um marco importante na formação do Brasil e da nacionalidade, o futebol se popularizou ainda mais.

Getúlio Vargas tinha a percepção de que o futebol poderia ter um papel importante na unidade e na consolidação de uma identidade do país. Até então, o futebol era praticamente amador, ou artesanal. O jogador praticava sua arte não para o mercado, mas para o grupo de admiradores ou de adeptos, como um artesão. A Revolução de 1930 e Getúlio compreenderam esse papel do futebol. A conquista da Copa de 1958 representou a consolidação do futebol como identidade nacional. As pessoas podiam até não saber quem tinham sido José Bonifácio, Tiradentes — o que é lamentável —, mas sabiam quem eram Didi, Pelé, Garrincha, Vavá etc.

Ainda assim, o futebol brasileiro chegou ao seu auge enfrentando preconceitos. Em uma crônica de 1965, o escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues escreveu: “Há três dias aconteceu no Maracanã a batalha entre o Brasil e a Bélgica. Todos os brasileiros mortos e vivos estavam lá. Defuntos de algodão nas narinas atravessavam as borboletas. Tinham pulado os muros do além para torcer. Só um brasileiro faltou: o sociólogo. Entre cento e tantos mil patrícios, não vi uma única e escassa flor da sociologia.” A distância histórica da intelectualidade em relação ao futebol também se explica por uma lógica invertida.

Havia uma desconfiança dos intelectuais mais críticos, como Lima Barreto e Graciliano Ramos, por ser o futebol um esporte organizado a partir dos clubes de elite. Talvez não tenham convivido com os modernistas em São Paulo, pois assim teriam compreendido a antropofagia e quem sabe percebessem que, embora trazido ao Brasil por estudantes da elite, por estudantes da aristocracia, era facilmente percebido pelo povo como uma coisa dele. Gilberto Freyre teve outra compreensão — ele escreveu ensaios que tratam do futebol de depois da Semana de Arte Moderna e da Revolução de 1930. O intelectual marxista Antônio Gramsci também: ele teria dito que “o futebol é o reino da liberdade humana, exercida ao ar livre”.

O sociólogo Florestan Fernandes foi outro que detectou a essência da popularização do futebol no Brasil em artigo no jornal Folha de S. Paulo de 13 de junho de 1994, quando escreveu que essa modalidade esportiva irradiou-se por toda a sociedade e tornou-se o emblema da hegemonia popular sobre a cultura das elites. Atestando sua popular característica criativa, o historiador Eric Hobsbawm faz referência a um maestro, diretor de uma orquestra francesa, que não perdia um jogo da seleção brasileira porque achava que não existia nada mais próximo da arte. E o próprio Hobsbawm, em sua obra Breve história do século XX, pôs o futebol no capítulo da cultura. “Quem, tendo visto a seleção brasileira em seus dias de glória, negará sua pretensão à condição de arte?”, escreveu o historiador.

O dilema sobre o papel cultural do futebol no Brasil é antigo. Em 1921, Lima Barreto escreveu: “Quando não havia futebol, a gente de cor podia ir representar o Brasil em qualquer parte. Mas apareceu o futebol dirigido por um ‘ministreco’ enfatuado e sequioso de celebridade, logo tal esporte bretão, de vários modos, cavou uma separação idiota entre os brasileiros. É a missão dele. De modo que ela, a tal separação, não existe no Senado, na Câmara, nos cargos públicos, no Exército, na magistratura, no ministério; mas existe no transcendente futebol. Benemérito futebol. E ainda dizer-se que o governo dá gordas subvenções aos perversos de semelhante brutalidade, para eles insultarem e humilharem quase a metade da população do Brasil — é o cúmulo! E note-se que o dinheiro que o governo lhes dá, provém de impostos que todos pagam, brancos, pretos e mulatos. Dinheiro não tem cheiro, afirmava Vespasiano.”

Em 1922, o mesmo Lima Barreto, já balançado pela popularização do futebol, relatou: “O futebol flagela também aquelas paragens como faz o Rio de Janeiro inteiro. Os clubes pululam e os há em cada terreno baldio de certa extensão. Nunca lhes vi uma partida, mas sei que as suas regras de bom tom em nada ficam a dever às dos congêneres dos bairros elegantes. A única novidade que notei, e essa mesmo não me parece ser grave, foi a de festejarem a vitória sobre um rival, cantando os vencedores pelas ruas, com gambitos nus, a sua proeza homérica com letra e música de escola dos cordões carnavalescos. Vi isso só uma vez e não garanto que essa hibridação do samba, mais ou menos africano com o futebol anglo-saxão, se haja generalizado nos subúrbios. Pode ser, mas não tenho documentos para tanto afiançar.”

Aldo Rebelo certa vez fez uma tirada que explica bem esse dilema ao responder a uma pergunta sobre a possibilidade de que o Estádio Nacional de Brasília se transforme em “elefante branco” após a Copa: “A opinião desse pessoal não é que o estádio é um elefante branco. Acham que Brasília, a cidade em si, é um elefante branco. Acham que, no fundo, o Brasil é um elefante branco, que talvez o Brasil não tivesse nem de ter saído do status de colônia. Para eles, continuaria sendo colônia, e de preferência que não fosse portuguesa, mas francesa ou britânica. Sentem inveja da Guiana e outros países que são colônia até hoje.”

Em seu tempo, Lima Barreto tinha a mesma opinião: “Nós, os brasileiros, somos como Robinsons — estamos sempre à espera do navio que nos venha buscar da ilha a que um náufrago nos atirou.”

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