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OS SONHOS NÃO ENVELHECEM

por Susana Buzeli

Na década de 1960, um grupo de jovens de Belo Horizonte reuniu-se para assistir, discutir e fazer filmes, fazer música e literatura.

Entre eles estavam Márcio Borges e Milton Nascimento, que trabalhava como escriturário e era músico (contrabaixista), juntamente com Wagner Tiso, nas noites da capital de Minas Gerais.

Márcio Borges, além de incentivar Milton Nascimento a compor, tornou-se o seu primeiro parceiro como letrista de inúmeras canções. Com o passar dos tempos, outros letristas surgiram como, por exemplo, Ronaldo Bastos e Fernando Brant, autor da letra Travessia.

Esta canção, de 1967, foi apresentada no 2º Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro. Interpretada pelo próprio Milton Nascimento, ficou em segundo lugar. Travessia o projetou definitivamente.

Dois músicos mais jovens também começaram a despontar, Lô Borges e Beto Guedes, com forte influência musical dos Beatles. Milton Nascimento tem, então, a ideia de gravar um disco chamado Clube da Esquina que, além de sintetizar todo este movimento musical de Belo Horizonte, tornou-se uma importante obra da música popular brasileira, reconhecida tanto nacional quanto internacionalmente.

Para reviver as “Histórias do Clube da Esquina”, que passam pelos anos 1970 e alcançam os anos 1980, Márcio Borges publicou pela Geração Editorial, em 1996, o livro “Os sonhos não envelhecem”. Vale a pena ler e se emocionar com as histórias e as canções do Clube da Esquina.

Clube da Esquina
Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges

Noite chegou outra vez
de novo na esquina os homens estão
todos se acham mortais
dividem a noite, a lua, até solidão
neste clube a gente sozinha se vê
pela última vez
à espera do dia naquela calçada
fugindo de outro lugar

Perto da noite estou
o rumo encontro nas pedras
encontro de vez
um grande país eu espero
espero do fundo da noite chegar
mas agora eu quero tomar suas mãos
vou buscá-la onde for
venha até a esquina
você não conhece o futuro
que tenho nas mãos

Agora as portas vão todas se fechar
no claro do dia o novo encontrarei
e no Curral D’el Rey
janelas se abram ao negro do mundo lunar
mas eu não me acho perdido
do fundo da noite partiu minha voz
já é hora do corpo vencer a manhã
outro dia já vem
e a vida se cansa na esquina
fugindo, fugindo, pra outro lugar

Clube da Esquina nº2
Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges

Poque se chamava moço
Também se chamava estrada
Viagem de ventania
Nem lembra se olhou pra trás
Ao primeiro passo, aço, aço, aço…

Porque se chamavam homens
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Em meio a tantos gases lacrimogêneos
Ficam calmos, calmos, calmos…

E lá se vai mais um dia…

E basta contar compasso
E basta contar consigo
Que a chama não tem pavio
De tudo se faz canção
E o coração na curva de um rio, rio, rio…

E lá se vai mais um dia…

E o rio de asfalto e gente
Entorna pelas ladeiras
Entope o meio fio
Esquina mais de um milhão
Quero ver então a gente, gente, gente…

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